Negociações perigosas

 

Hoje gostaria de falar sobre uma prática muito comum entre os profissionais que não estão totalmente satisfeitos com a empresa em que trabalham e buscam oportunidades de crescimento no mercado. Trata-se da estratégia de encontrar uma alternativa de emprego segura e, a partir dessa opção nas mãos, negociar condições melhores na empresa atual.

Com quase trinta anos de experiência no mercado já passei inúmeras vezes pela situação em que fui abordado por candidatos a emprego que se demonstravam insatisfeitos em suas empresas e que pediam uma oportunidade de mudar suas vidas profissionais. Em várias ocasiões decidi dar uma chance a estes profissionais e ofereci uma vaga com melhores condições financeiras e de trabalho. O mais estranho, no entanto, foi detectar que na maioria dos casos onde a iniciativa de mudança vinha do candidato, a conclusão do caso acabava em uma renegociação do profissional com sua empresa atual e a decisão de se manter nela.

Em tese não existe nada de errado nesta forma de negociar. É lícito buscar melhores condições de trabalho, assim como é lícito dar oportunidade a empresa atual a propor uma contra-oferta. Afinal estamos falando de uma relação de compra e venda de serviços, certo?

Não é bem assim…

A relação de trabalho entre uma empresa e seus funcionários é muito mais complexa do que a simples transação de compra e venda de um serviço qualquer. Trata-se de uma relação de longo prazo, onde a confiança e a transparência são fatores importantes e que podem ser abalados neste tipo de negociação.

Por outro lado, “vender-se” a uma empresa e depois desistir da “venda” cria um sentimento bastante negativo no potencial “comprador”, que pensava ter fechado negócio e, de repente, se vê na situação de ter perdido seu tempo.

Voltar atrás em uma decisão nunca deixará de ser notado. É uma demonstração de insegurança, de falta de palavra, que ficará marcada tanto na empresa que decide manter o profissional, quanto na empresa que fez a oferta e recebeu a recusa. Esta marca pode ser extremamente prejudicial a sua carreira se você estiver em um mercado relativamente pequeno, onde os vários concorrentes se conhecem e trocam experiências.

Por fim, sempre fica uma dúvida. A empresa que aceitou renegociar as condições o fez por que assumiu ter errado sua avaliação de valor anterior e decidiu corrigir uma distorção ou simplesmente resolveu evitar uma saída abrupta de um profissional importante antes de conseguir um substituto a altura com custos mais atrativos?

Respeito as pessoas que optam por negociar desta maneira, elas têm esse direito. No entanto, considero este tipo de negociação muito perigosa e com maior potencial de dano do que de benefício. Creio que com pequenos ajustes é possível obter muito melhor resultado.

Minhas recomendações para os profissionais são as seguintes:

1) Se você não está satisfeito no seu trabalho, compartilhe suas preocupações com seus superiores.

2) Se nada mudar, procure o mercado e busque as alternativas disponíveis, mas não se comprometa com ninguém antes de ter certeza de qual será sua decisão.

3) Após sua avaliação do mercado e antes de se comprometer com alguma empresa em especial, volte a conversar com seus superiores e avalie se algo mudou.

4) Caso mude, fique em sua empresa e continue investindo nela.

5) Caso não mude, monte seu plano de saída, escolha a melhor opção disponível e firme seu compromisso.

6) Comunique a empresa de sua decisão e não caia na tentação de voltar atrás em sua decisão. Esse tipo de negociação é extremamente perigosa.

Minhas recomendações para os empregadores são as seguintes:

1) Procurem se antecipar aos desconfortos de seus funcionários importantes. Muitas vezes a transparência e a visão de futuro são suficientes para deixar o funcionário mais confortável.

2) Procurem manter a justiça na classificação salarial de seus funcionários. É melhor perder um funcionário para o mercado e manter a equipe do que perder a equipe por um movimento salarial injusto.

3) Só negociem com o profissional se for possível manter a coerência da grade salarial interna da empresa. Caso contrário, os problemas futuros serão muito maiores.

4) Não prometam o que não será possível cumprir. Você estará prejudicando sua empresa e o profissional envolvido.

Paulo Pinho, CEO da Synoro Negócios Inovadores.

Comentários ou sugestões de temas podem ser enviados para paulo.pinho@synoro.com.br.

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