Juventude versus Maturidade

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Hoje gostaria de falar de um tema que tem me feito refletir bastante sobre a forma como a sociedade atual lida com a juventude e com a maturidade quando comparada com tempos atrás.

No tempo de meus pais a sociedade era totalmente dominada pelos mais velhos. O pai era todo poderoso na família, diretores mandavam em gerentes, gerentes em supervisores, supervisores nos operários. Um dos principais fatores para definir o crescimento profissional era a idade e o tempo de experiência. Os mais velhos precisavam ser ouvidos pois tinham vivido mais, aprendido mais e, por isso, eram mais capazes de tomar as decisões corretas.

Minha geração já foi um pouco diferente. Me formei em 1983, época em que a indústria de microcomputadores estava surgindo e onde os principais atores eram rapazes recem saídos das faculdades, com idades em torno dos 20 anos. A velocidade com que o mercado de computadores evoluiu fez com que alguns desses profissionais acumulassem fortunas em menos de 10 anos, tornando-se empresários poderosos com idades em torno dos 30 anos.

Empresas como Microsoft e Apple surgiram neste período. Eram empresas onde a juventude dominava o cenário, o que resultava em comportamentos mais agressivos e ousados, típicos de quem é mais jovem. Esses comportamentos resultavam em empresas mais ágeis, mais propensas a buscar mudanças e a tomar riscos o que as tornou extremamente competitivas e bem sucedidas.

Eu mesmo sou um exemplo deste processo. Contratado aos 24 anos por um startup da área de redes locais no Brasil, me tornei gerente aos 26 anos e aos 30 já era diretor da segunda maior fabricante de microcomputadores do País. Me recordo das reuniões que tinha com os donos das revendedoras de microcomputadores, a maioria deles com idades entre 40 e 50 anos, onde no auge da minha arrogância juvenil tentava demonstrar a eles como deveria ser a estratégia de vendas dessa tecnologia que iria revolucionar a maneira como as empresas iriam funcionar a partir de então.

Mas o mercado não era formado somente de Microsofts e Apples. A grande maioria das empresas continuava a contar com profissionais experientes e mais maduros. Era o anúncio de uma tendência que acabou por se confirmar alguns anos mais tarde.

Mas a juventude também trouxe seus problemas. Mesmo comparando as duas jovens culturas das gigantes do setor de informática, o jeito mais “velho e maduro” de Bill Gates quando comparado ao “jovem e irrreverente” de Steve Jobs, demonstrou superioridade em prazo mais longo. Enquanto a Apple teve crescimento e quedas alucinantes, a Microsoft foi capaz de crescer de maneira extremamente rápida mas sustentável.

Alguns podem argumentar que o próprio Steve Jobs foi capaz de virar a mesa alguns anos mais tarde, mas é importante notar que ele mesmo já não era mais o jovem arrogante que acabou por tropeçar em suas próprias pernas em sua primeira passagem pela Apple.

O sucesso estrondoso de algumas empresas como a Microsoft e a Apple dispertaram para uma realidade importante. A capacidade de inovar, de buscar o diferente é fundamental para manter as organizações competitivas. Ao mesmo tempo, incentivaram uma legião de crianças e adolescentes a tentarem fazer o mesmo, principalmente no setor de tecnologia.

Os anos se passaram e veio a era da internet. O fenômeno mais ou menos isolado dos jovens empreendedores do Vale do Silício se ampliou para vários setores e surgiram jovens visionários de todo tipo. Milhares deles tiveram suas ideias frustradas em poucas semanas, mas alguns casos se tornaram verdadeiros mitos da genialidade da juventude. Casos como napster, ebay, facebook, google, entre outros marcaram a sociedade de forma impressionante.

No mesmo período começou um outro fenômeno que resultou no cenário que estamos vivendo atualmente. Na busca incessante por mais resultados e menor custo, as empresas iniciaram um processo de “aposentar” os profissionais mais maduros (e caros) por outros mais jovens e criativos (e baratos) que fossem capazes de produzir os resultados que as estrelas do mercado estavam produzindo.

Surgem os processos de renovação dos quadros de executivos, os programas de desenvolvimento de novos talentos, os processos de compra de empresas menores e mais modernas, todos movimentos que buscavam a reciclagem dos profissionais que dirigiam as empresas.

O resultado desses dois fenômenos foi que uma grande massa de profissionais competentes e experientes perdeu e ainda perde seus empregos somente por que são considerados ultrapassados, sendo substituídos por uma massa de igual tamanho de jovens talentosos que serão responsáveis por recriar o mundo corporativo.

Passados alguns anos já pudemos presenciar algumas vítimas dessa tendência de substituição da maturidade pela jovialidade. A bolha da internet demonstrou que uma grande parte dos gurus da tecnologia não eram capazes de sustentar seus sonhos, a agresssividade extrema dos jovens do mercado financeiro resultou no desequilíbrio mais grave da economia mundial desde a recessão de 30, muitas empresas quebraram por conta de estratégias repletas de ousadia que não foram capazes de lidar com a dura realidade.

Ao mesmo tempo é interessante notar o perfil dos executivos que tocam as mesmas gigantes que deram origem a todo este movimento. A maioria deles demonstra sinais que denunciam suas idades como rugas, frontes mais avançadas e tons de cinza nos cabelos que ainda possuem. Ainda assim, uma breve conversa com cada um deles deixa claro que continuam sendo profissionais altamente criativos e com energia suficiente para tocar qualquer envergadura de projeto.

Neste contexto, até os startups estão mudando de mãos. Se antes a grande maioria deles eram dominados por jovens recem saídos da faculdade, hoje vemos quarentões e cinquentões criando empreendimentos que soam como ficção científica.

Isso só demonstra que criatividade e capacidade de empreender não tem relação direta com juventude. Pessoas maduras podem ser tão criativas e empreendedoras quanto pessoas jovens, com a vantagem de possuirem muito mais experiência.

Não estou aqui defendendo que os jovens não tenham seu espaço nas corporações. Em vez disso, proponho que eles sejam preparados para serem os grandes executivos do futuro em vez de substituirem os grandes executivos do presente.

 

Paulo Pinho, CEO da Synoro Negócios Inovadores.

Comentários ou sugestões de temas podem ser enviados para paulo.pinho@synoro.com.br.

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